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sexta-feira, 13 de março de 2015

A ÉTICA PROTESTANTE E A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA


Por Anatote 

Encontramos na Teologia Reformada e na vida dos reformadores, e, posteriormente, dos calvinistas, as doutrinas da vida cristã e a ética social protestante; um testemunho a favor do engajamento em reformas estruturais da religião, da sociedade e do Estado. O protestantismo não falou em ética somente para fazer apologética diante da nova ética proposta pela Teologia da Libertação – TL. O protestantismo nunca excluiu a participação dos cristãos na política, antes, tem como missão no Mandato Cultural. A espiritualidade protestante é vivida em todas as áreas da ciência, da economia e da política, orientada por uma ética do trabalho responsável e disciplinada, como serviço prestado a Deus.

A Igreja está inevitavelmente envolvida nos movimentos econômicos e políticos da história. Nem sempre de forma negativa como afirmam os seus opositores. Os protestantes contribuíram na história como força permanente de transformação política e social, no advento da democracia moderna, na garantia das liberdades individuais e dos direitos humanos, com um papel fundamental na primeira abolição da escravatura, e por incrível que possa parecer aos defensores modernos do Estado Laico, na luta contra a ameaça teocrática, pela independência da Igreja do Estado. A teocracia calvinista é um mito. Infelizmente, podemos constatar a expansão missionária do protestantismo junto com a penetração colonial dos países europeus e dos Estados Unidos na America Latina e na África, os quais se enriqueceram à custa da exploração dos países pobres, observa Rubem Alves, um dos expoentes da TL, banido da Igreja Presbiteriana do Brasil por heresia, em seguida, este erudito pastor foi relegado e discriminado por ser protestante pela mesma TL sob a acusação de Frei Beto de ter escrito a sua teologia nos Estados Unidos.

Rubem Alves analisou a ética social protestante e escreveu sobre a circunstância em que veio a ser articulada. Afirmou que a consciência dos problemas sociais econômicos e políticos a partir de 1950 levou o protestantismo a dar os primeiros passos na formulação de um projeto para o Brasil, a despeito da resistência da ética social reduzida à máxima: “Converta-se o individuo e a sociedade se transformará” que, confrontava a nova ética articulada a partir de 1950, a qual defende que não basta o trabalho responsável e disciplinado, propõe mudar as estruturas econômicas e políticas.

Na composição da nova ética está uma teologia (Teologia da Crise) forjada em meio às grandes crises europeias “– a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Comunista, a Segunda Guerra Mundial –,” Rubem Alves escreve:

“situações em que a Igreja se viu envolvida, contra a sua vontade, nas correntes da história. A passiva atitude dos protestantes na Alemanha, silenciosos, na melhor das hipóteses ativamente apoiando o nascimento e o desenvolvimento do nazismo, levantou sérias questões acerca das responsabilidades políticas dos cristãos. Pode a Igreja silenciar quando seis milhões de judeus estão sendo exterminados, alegando que a sua competência se restringe ao reino espiritual, sendo-lhe vedado envolver-se na política? Não. O Deus de Jesus Cristo implica uma radical negação de todos e quaisquer poderes totalitários, e, portanto, a relação do cristão com a ordem política não pode ser de ajustamento, mas antes de tensão crítica.”


Rubem Alves afirma que entra na composição da ética social protestante a Teologia Bíblica, apontando para os profetas que, confrontaram sacerdotes e reis, concluiu-se que, “a fé em Jesus Cristo tem de se expressar em termos de responsabilidade social”. Também citou o movimento ecumênico como importante elemento na construção desta ética, o qual, segundo ele, “iniciou com a preocupação pelas divisões da Igreja, através de todo mundo”, pois busca a reconciliação entre os povos. Ainda que alguém pense nas alternativas de participação e não participação política, neste ponto, concordamos, existem, inevitavelmente, apenas duas alternativas: “a participação responsável e consciente e a não participação irresponsável e não confessada.”

A crítica feita à ética social protestante pela nova ética afirma que a prioridade da Igreja não seja a salvação do corpo, mas uma antropologia teológica dualista que, separe o homem de seu corpo, não é protestante, mas gnóstica. Cremos na ressurreição do corpo. Mesmo antes da Teologia da Crise e do Movimento Ecumênico já existia uma ética protestante com a pressuposição de que a Igreja deveria ser um dos instrumentos para a promoção de justiça e bem-estar. O entendimento de Rubem Alves de que para o protestantismo a única tarefa que a Igreja se pôde propor foi de salvar almas e que entende as estruturas como produto da providencia e que não assumimos o papel de transforma-las, foi sem dúvida provocada não por uma ética social, mas por uma apologética frente a TL. Ao desqualificar a pretensão da nova ética social a Igreja sofreu e ainda sofre as consequências da não participação irresponsável e não confessada.