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quinta-feira, 28 de maio de 2015

RÉPLICA PROTESTANTE A UMA POLÊMICA RESPOSTA CATÓLICA SOBRE A SOLA SCRIPTURA


Por Anatote Lopes


A presunção do padre Paulo Ricardo de por fim a polêmica que remonta o século XVI é cômica. 

O padre é uma pessoa interessante, um ser humano respeitável, mas não pode representar a Tradição e o Magistério que defende. 

O padre Paulo às vezes denuncia o aparelhamento da igreja romana e reconhece as virtudes beligerantes do protestantismo conservador. O fato é que na sua militância não ignora os protestantes.


Eu olho com tolerância e amor a todos os cristãos e não cristãos, mas, não deixo de lhes dizer a verdade sobre nossos comportamentos e posicionamentos.

Alguns mestres parecem subestimar a capacidade de discernimento de seus discípulos e lhes apresentam um protestantismo irrelevante, irracional e desprovido do Espírito Santo e do amor ao próximo.

Alguns demonstram grande ignorância do que contestam com relação à doutrina protestante e a vida e a obra dos reformadores.

Quando o padre Paulo nega a fundamentação de alguma doutrina do protestantismo e a julga “mal fundamentada” deixa de ser um crítico criterioso e passa a se igualar aos defensores leigos, desinformados e preconceituosos.

A ideia de que para um protestante a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) não possui base bíblica, como “conversa sem pé nem cabeça, forjada por Martinho Lutero e repisada ainda hoje pelos seus seguidores”, como declara o padre Paulo, não me parece muito coerente.

Ele mesmo, furiosamente, reafirma que para o catolicismo que ele representa: “O cristianismo, dissemos aqui várias vezes, não é a religião do livro, mas de toda a Palavra de Deus.” (Ênfase do Padre Paulo Ricardo no artigo apresenta negrito e grifo em "dissemos aqui várias vezes": Uma resposta católica a uma polêmica protestante).

O “catolicismo”, no sentido de sua própria defesa, contesta a “insistência dos protestantes no dogma da Sola Scriptura,” logo, o protestantismo busca respaldo somente das Escrituras para toda doutrina.

Isso é ótimo e todo católico que perguntar: “onde tem isso na Bíblia” como a esperar somente dela, uma norma para a sua vida e para o culto a Deus, deve se tornar um protestante.

A citação da confirmação dos apóstolos “em toda boa obra e doutrina” “(cf. 2 Ts 2, 15)” feita pelo padre para reportar à autoridade da Tradição e do Magistério da denominação ICAR, não é admissível para este propósito, pois tem sido citada para provar exatamente o contrário e ainda afirmar o princípio regulador do protestantismo (SOLA SCRIPTURA).

Os mesmos textos invocados pelo padre para afirmar a autoridade da Tradição servem para negar o entendimento papista de palavra de Deus na tradição defendida pelo padre (Tradição, Magistério e Bíblia).

O entendimento Apostólico da autoridade verdadeira e normativa da Tradição Apostólica está confinada na Bíblia.

Ainda que existam tradições extrabíblicas e tenham a sua continuidade na Tradição e Magistério da Igreja, estes não deveriam receber a mesma autoridade.

Tal Tradição e Magistério nunca deveriam ter se distanciado desse princípio: SOLA SCRIPTURA. Antes, o Magistério deve se arrepender e pedir perdão a Deus, e, novamente, submeter-se a toda Palavra das Escrituras.

O padre atribui à controvérsia o crescimento da desconfiança, “seja em relação ao catolicismo, seja ao protestantismo”.

Ora! Desde o nascimento do cristianismo os mundanos olham com desconfiança para os cristãos, enquanto não forem iluminados pelo Espírito Santo.

A iluminação do Espírito Santo que elimina a desconfiança é uma obra soberana de Deus; Ele soberanamente nos usa para comunicar o Evangelho Bíblico; apesar de nossas imperfeições, de qualquer natureza.

Somente o Evangelho Verdadeiro pode eliminar essa desconfiança e fazer o que as nossas tradições religiosas e colegiados de sacerdotes não podem: Produzir conversões verdadeiras.

O Evangelho Bíblico pregado nos púlpitos, anunciado e vivido neste mundo no poder do Espírito Santo elimina a desconfiança contra os cristãos, das pessoas as quais Deus quer salvar.

A confusão dos perdidos é inevitável. Pois isso obviamente, não tem qualquer lógica a pergunta do padre: “Que tipo de pessoa, hoje em dia, acreditará numa Igreja que prega uma enormidade de conceitos desarticulados, sem a devida consideração pelo contexto cultural e pelos gêneros literários?” 

O mau uso das Escrituras e a multiplicação de seitas são reprovados hoje, tanto por protestantes, quanto por católicos.

Que tempos de confusão e de proliferação de falsas doutrinas! Mas, as ovelhas de Cristo são atraídas pela voz do Bom Pastor, Jesus Cristo; portanto, a salvação do pecador é uma obra realizada por Cristo somente, em sua morte na Cruz.

Não foi coerente com a formação do Padre Paulo a negação da “consideração de gênero literário, a articulação de conceitos” à premissa do protestantismo.

Será que o Padre desconhece a imensa cooperação dos exegetas protestantes à teologia, a qual é reconhecida e publicada por editoras católicas?

A tradição reformada produziu contribuições profundas à teologia por estudiosos versados no grego, hebraico e latim; interpretes, exegetas e teólogos estudiosos da historia, geográfica e arqueologia bíblicas reconhecidos.

Entre católicos e protestantes não faltam eruditos competentes para considerar o texto original, o contexto cultural e o gênero literário dos textos bíblicos.

Não é por falta de competência para produzir hermenêutica, até mesmo proveitosa para um padre estudioso e honesto da igreja romana, que vieram a existir as divergências e controvérsias religiosas. 

Que desonestidade do padre não admitir que, não haja exclusão pelo princípio reformado do Sola Scriptura à exegese e a hermenêutica; nem de aplicação de métodos diversos na interpretação bíblica. Não agiu com ética e honestidade intelectual; mas, fez o que lhe interessou fazer.

O padre pode puxar a sardinha para o seu lado à vontade, desde que seja honesto.

A Bíblia interpreta a própria Bíblia. Não precisa ser linguista para entender o que se pode ler numa boa tradução. Ainda mais, quem conhece a Bíblia pode aferir que, o Novo Testamento interpreta o Velho Testamento, uma parte das Escrituras lança a sua luz sobre a outra.

O Espírito Santo é quem nos guia à toda Verdade, desde que não sigamos aos falsos profetas, mas a Cristo.

Falsos profetas existem entre os papistas e não papistas; não faltam novos papas. Portanto, Cristo mesmo exorta: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;” (João 5.39).

As Escrituras nos advertem sobre esses falsos profetas: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.” (Mateus 7.15).

E ainda o apóstolo nos adverte: “Eu sei que depois da minha partida entrarão no meio de vós lobos cruéis que não pouparão rebanho". (Atos 20.29).

A Bíblia nos dá o exemplo dos Cristãos de Beréia para aferirmos a interpretação, os quais eram "mais nobres que os de Tessalônica"; os quais ouviram com avidez as palavras do Apóstolo Paulo, mas consultaram as Escrituras para aferir a sua credibilidade.

Parece incrível que um padre, uma tradição, um magistério ou um papa reivindique para si uma autoridade maior que a apostólica pretextando falar em nome dela própria. Notemos como convêm a prudência exaltada como nobre, dos irmão de Beréia:

"E logo os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Beréia; e eles, chegando lá, foram à sinagoga dos judeus. Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim. De sorte que creram muitos deles, e também mulheres gregas da classe nobre, e não poucos homens" (Atos 17.10-12).

O Sola Scriptura tira a exclusividade de um colegiado privilegiado de papistas que tenta impor ao povo a sua vontade criando dogmas, normas e tradições, as quais não somente inexistente na Bíblia, como são absolutamente antibíblicas.

O que historicamente tem sido feito despoticamente pela Tradição e pelo Magistério romano imitado pelos protestantes herdeiros de práticas imperialistas e autoritárias do papismo medieval?

Não me refiro às Guerras e execuções. Mas, a imposição pelas armas. Não é verdade que os padres da antiguidade e alguns reformados justificaram a execução de hereges e disputas armadas?

Não é o Sola Scriptura que difama o cristianismo, mas o distanciamento dele, quer seja por católicos ou protestantes.

A rendição à autoridade da Tradição e do Magistério despótico da ICAR ou de qualquer outra igreja que, não admita a iluminação do Espírito Santo e o livre exame das Sagradas Escrituras é uma atitude equivocada.

O padre apela ao bom senso e humildade e reafirma citando Chesterton que "a Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo" e apela ao depósito e garantia da Bíblia pelo testemunho da própria Igreja.

Ora, se a Igreja um dia afirmou que o Evangelho segundo Lucas é verdadeiro e o segundo Maria Madalena é falso, deveria como os protestantes perseverar em recusar as adições deste e de outros “evangelhos”.

A Bíblia foi preservada e organizada pela graça e providência de Deus através de instrumentos humanos, dentro de uma tradição humana que a reconheceu e a ela se submete.

Agora, a ICAR  não pode invocar a própria autoridade como Igreja para mudar ou adicionar à Bíblia qualquer coisa; quer seja por novas revelações do Espírito, vontade de indivíduos ou tradições humanas, uma vez que afirmou no passado a sua incontestável suficiência e autoridade.

Infelizmente, é verdade que, agora, nesta tradição (ICAR), a Bíblia está sendo desprezada e reduzida, quando posta ao lado, ou seja, igualada à Tradição e ao Magistério.

O livros bíblicos foram reconhecidos utilizando-se de critérios de canonicidade que certamente excluiria qualquer texto produzido por esta Tradição e pelo Magistério.

O padre critica a “muitos católicos que se deixam levar por aquela famosa pergunta: "Onde está na Bíblia?” como se não fosse na Bíblia que eles deveriam buscar sua resposta, mas na interpretação autorizada do Magistério.

Logo, o problema é mais grave do que se imagina, já que a Bíblia foi posta abaixo da Tradição e subserviente dela.

O maior ato de desonestidade intelectual do padre acontece precisamente quando ele acusa os protestantes de tomar para si a autoridade desse Magistério.

Absolutamente não, os protestantes de reta doutrina que, adotam o Sola Scriptura, estão restaurando à Igreja, desde a Reforma no Século XVI, a autoridade e a veracidade do Antigo e do Novo Testamento abandonada pelo Magistério e por parte da tradição que invoca.

A recusa do papado em devolver a Bíblia ao seu lugar de autoridade, equivale dizer que, eles decidiram rejeitar e negar as próprias Escrituras e sua autoridade e credibilidade.

Essa Tradição e Magistério contraria a tradição apostólica, mesmo enquanto se declaram proprietários ou depositários da Bíblia, para reivindicar o direito de fazer dela o que desejarem.

A questão é que determinadas práticas reivindicadas pelos papistas, de fato, ficaram insustentáveis biblicamente, as quais passaram a ser justificadas e fundamentadas pela Tradição e pelo Magistério.

A ICAR sofre a consequência do fato de terem abandonado a Bíblia. Por isso negam o Sola Scriptura. Obviamente, muitas doutrinas e práticas romanistas não se sustentam somente pela Bíblia.

O abismo apresentado até agora, chama outro abismo, e o padre não poderia permanecer somente na critica aos protestantes; por isso, partiu para um ataque frontal à Bíblia; ele afirma que ela:

1. “Não é a premissa fundamental”.

2. “Possui argumentos aparentemente contraditórios”.

3. Admite que “é a interpretação autorizada da Igreja que a ilumina e revela a intenção de cada autor sagrado”.

Logo, o padre permanece fiel à posição medieval que enclausurou a Bíblia até a Reforma Protestante.

Hoje é possível a milhares de católicos lerem e conhecerem as Escrituras se desejarem; graças à Reforma Protestante.

Outras afirmações do padre são geradas pelo seu espírito sectário e demonstram ignorância histórica. Talvez de propósito, por isso, nem merecem uma refutação.

Ainda que seja um ataque frontal à autoridade da Bíblia, não são argumentos fortes e evidenciam uma exibição de seu orgulho religioso; depõem por si mesmo contra o objetivo do padre.

Apesar de tudo, percebi que o padre melhorou no trato com os protestantes, parou de vociferar ofensas do tipo: “protestantes idiotas!” Como já fez; mas, ainda não entendeu que um protestante insiste na afirmação de que a Bíblia é a única regra de fé e prática; não por fruto de ignorância, mas, trata-se de algo que distingue histórica e fundamentalmente um protestante de um católico.

Não basta usar pronomes de tratamento e substantivos generosos numa conversa; para um bom dialogo é necessário respeito.

Não nos interessa negociar a autoridade da Verdade confinada na Bíblia e ceder um palmo sequer à Tradição e ao Magistério romanistas, em nome da unidade dos cristãos.

Isso não significa que, nos falta humildade e respeito, mas que temos a convicção da nossa fé e um santo temor de Deus; não queremos ser incoerentes com a nossa confissão.

Podemos respeitar e socorrer o ser humano, independente da sua religião, considerarmos a dignidade do homem feito imagem e semelhança de Deus.

Reconhecemos pontos em comum com o catolicismo romano no conteúdo moral e social do Evangelho, como a rejeição do racismo, do aborto, do divórcio, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da intolerância religiosa, etc.; acreditamos que podemos lutar juntos, por esses e outros interesses em comum.

Desejamos esclarecer alguns pontos discordantes fundamentais ou desfazer o espantalho que alguns sacerdotes papistas tem construído da Fé Reformada.

Acreditamos que, sejam boas as intenções de alguns papistas em diminuir o distanciamento e construir um melhor relacionamento e cooperação “ecumênica”, mas, ainda que sejamos muito resistentes, ou rejeitemos o ecumenismo proposto por Roma, não se trata de falta bom senso e humildade, mas queremos ser respeitados nisso também, o que já seria um bom começo para uma boa conversa.

Não desprezamos a Cristo, Sua Palavra é para nós a Verdade está acima de todo testemunho humano; não importa a autoridade e espiritualidade que invoquem os indivíduos ou as instituições.

Nós protestantes ou reformados nos vemos separados de homens e muito unidos a Cristo e a Sua Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, verdadeiramente.

Celebramos os sacramentos que Jesus Cristo ordenou; empenhamo-nos no que seja bíblico para a santificação de nossas almas e recusamos as invenções das tradições humanas.

Não invocamos a autoridade de uma interpretação particular da Bíblia, como acusa o padre, mas de Jesus Cristo nos falando a Sua Palavra: a Bíblia Sagrada.

Nisso não temos pecado. Sendo temerária a condenação que temos recebido do padre por recusarmos sua autoridade imperial humana. A autoridade dos padres está decadente e contaminada pela superstição, idolatria e carnalidade.

No passado, tal autoridade não apenas predominava, mas, também, dominava politicamente o mundo, explorava e escravizava. Historicamente, a Reforma Protestante foi uma benção para todos. Não foi perfeita, mas foi abençoadora.

Foi necessário que a ICAR perdesse a sua predominância e hegemonia em sua unidade com o império, para que mundo fosse liberto da ignorância e da escravidão; especialmente da escravidão dos negros e dos pobres.

Acredito que, as igrejas protestantes foram tentadas, e muitas já caíram nas mesmas desgraças que a velha igreja romana.

Hoje é necessário e urgente uma nova reforma no protestantismo; mas, uma nova reforma hoje, também será a reafirmação do mesmo princípio: SOLA SCRIPTURA.